Crônica sobre o carnaval – Profª Tarcila Barboza

Carnaval, com ou sem o nosso aval?

2016, como todos os outros anos, começou preguiçoso… Isso porque é comum para o brasileiro entender que o ano só começa de verdade após o Carnaval. Compreensível, afinal é quase outras férias. Justiça seja feita: é uma festa culturalmente belíssima! Culturalmente… Tradicionalmente, nem tanto. Nada contra os corpos desnudos no sambódromo nem contra os trios elétricos nas avenidas. Mas, entre outros, um detalhe especificamente me incomoda bastante neste período de folia.

Ele chegou a mim por meio de uma manchete de setembro do ano passado: “PREFEITURA IGNORA A CRISE E DOBRA VERBA PARA AS ESCOLAS DE SAMBA”. Não a nossa prefeitura, claro, a do Rio de Janeiro, mas nem por isso meu incômodo diminuiu, já que, no final das contas, tudo sai de um bolso só, do bolso brasileiro. Para quem não tem noção do que essa manchete significa, esclareço: cada uma das 12 agremiações, aquelas que a gente torce sem ver nem para quê, recebeu 2 milhões de reais do município, isto é, foram gastos 24 milhões de reais da Prefeitura só no grupo especial! Não vou nem pesquisar quanto foi gasto com o grupo de acesso porque não tem como meus olhos se arregalarem mais do que isso, acredito que os seus também não. Mas, não se preocupe, a população revoltada com os gastos lotará o sambódromo e dará audiência à transmissão do espetáculo.

Paralelo a isso, uma tia muito querida precisou se internar no hospital público e não conseguiu por falta de leito. Depois de alguns dias sobrevivendo no corredor do hospital, juntamente com outros tantos na mesma condição, foi mandada para casa, pois poderia ali pegar alguma infecção e agravar seu quadro. Detalhe: sem seu medicamento principal, do qual depende todo seu tratamento e sua mínima qualidade de vida, porque, simplesmente, está em falta no hospital.Esse é o caso da minha tia, mas como ela tem muitos outros, inclusive em situação muito pior, em todo o Brasil. Apontei uma necessidade da saúde, mas poderia apontar da educação, do meio ambiente… E de tantas outras áreas que precisam de recursos.

Minha sugestão? Para não se perder a cultura do desfile, cada escola de samba receberia seus 2 milhões de reais e uma área para investir, como a saúde. Até consigo imaginar as alas… Uma, por exemplo,poderia ser só com crianças com câncer, que foram ajudadas pela escola, sendo levadas em cadeiras de rodas por seus pais, felizes por ver que o Brasil prestou atenção no drama dos seus filhos… Ganharia aquela agremiação que fizesse o melhor trabalho social e conseguisse representá-lo melhor no sambódromo. O valor dos ingressos? Uma grande parte deveria ser destinada a causas também sociais.Sabe porque eu acho que talvez minha ideia não conseguisse ser posta em prática? Não consigo encaixar os corpos desnudos nela… Sem eles, será que teria público? De qualquer forma, estou certa: culturalmente, o Carnaval é mesmo lindo; tradicionalmente, tem muito a melhorar.Mas, para isso, precisamos decidir se ele tem ou não o nosso aval da forma como está.

Tarcila Barboza (professora de Língua Portuguesa)